domingo, 30 de agosto de 2015

Tudo lixo. Viver. Medo. Insistência.

Eu, jovem, ouvi falar na "crise dos trinta".
Trinta? Como?
Depois, na dos quarenta? Quarenta? Novamente, 
como?
Mas, na sequência, veio a dos cinquenta. E veio.
Veio pesada. Ultrapassada? Cronologicamente, sim.
Nos ombros? Ainda pesa. E já estou contando com 
um ano a mais do que sessenta. E o peso dos cinquenta
se roga presente. Presente? Que diabo é isto? Devolvo.
Fácil. 
Anos pesados, duros, lentos, sofridos, amargos. Mais do 
que dez, suplantando a década em que, supostamente, 
estariam confinados. 
E quantos finados. Quantos e tantos, antes companheiros, 
amigos, parentes, assumiram esta condição...
De repente, não mais que de repente, me sequestrou a solidão, 
esta nossa - não percebem, perceberam? - inseparável companheira.
Chegamos e partimos sós. Inevitável. Insofismável. 
No afagar, na promessa, nos concede. O quê? 
Beijo escarrado, sem escarro, escancarado. 
Despudorado. Melado. Profundo. 
De língua, Mátria ( já dizia Vieira), e de 
Pátria. Mãe. beijo que nos acalenta em boas vindas,
em despedida. Beijo molhado. Ou seco? 
Abrangendo coração e mente. E que revela, pois 
desmente, tudo. Distante? Postal? Quanto mais
lontano, mais fere. E marca. A memória. 
Pois escreve, em linhas tortas, acusando sempre, 
a história. Que transporta. Ao início. 
Ao encontro. Do quê? Do primeiro 
beijo. Na boca. Na testa. No coração. 
Presente. Que sem licença, invadiu, 
marcou. Ah! Marcou.
A hora, a grande hora, da chegada,
da inevitável despedida. 
Pra sempre.
E ainda faz engasgar com saliva. 
A saliva. Presente na boca, no sabor, 
na alma.
Que independente de vontade. Ainda resta.
Resta. Viva.