Trinta? Como?
Depois, na dos quarenta? Quarenta? Novamente,
como?
Mas, na sequência, veio a dos cinquenta. E veio.
Veio pesada. Ultrapassada? Cronologicamente, sim.
Nos ombros? Ainda pesa. E já estou contando com
um ano a mais do que sessenta. E o peso dos cinquenta
se roga presente. Presente? Que diabo é isto? Devolvo.
Fácil.
Anos pesados, duros, lentos, sofridos, amargos. Mais do
que dez, suplantando a década em que, supostamente,
estariam confinados.
E quantos finados. Quantos e tantos, antes companheiros,
amigos, parentes, assumiram esta condição...
De repente, não mais que de repente, me sequestrou a solidão,
esta nossa - não percebem, perceberam? - inseparável companheira.
Chegamos e partimos sós. Inevitável. Insofismável.
No afagar, na promessa, nos concede. O quê?
Beijo escarrado, sem escarro, escancarado.
Despudorado. Melado. Profundo.
De língua, Mátria ( já dizia Vieira), e de
Pátria. Mãe. beijo que nos acalenta em boas vindas,
em despedida. Beijo molhado. Ou seco?
Abrangendo coração e mente. E que revela, pois
desmente, tudo. Distante? Postal? Quanto mais
lontano, mais fere. E marca. A memória.
Pois escreve, em linhas tortas, acusando sempre,
a história. Que transporta. Ao início.
Ao encontro. Do quê? Do primeiro
beijo. Na boca. Na testa. No coração.
Presente. Que sem licença, invadiu,
marcou. Ah! Marcou.
A hora, a grande hora, da chegada,
da inevitável despedida.
Pra sempre.
E ainda faz engasgar com saliva.
A saliva. Presente na boca, no sabor,
na alma.
Que independente de vontade. Ainda resta.
Resta. Viva.