sábado, 16 de março de 2013

O texto abaixo me foi encomendado
para apresentar uma mostra de desenhos
de meu pai. Na fundação Mário Soares,
inaugurada pelo próprio. É o que fui
capaz de produzir.
Ano? 2013. Mês? Abril.
E é isso.



ANFIGURI.

Texto que não explica ou esclarece
nada. Como este. Mero anfiguri.
Os desenhos, aquarelas, guaches,
expostos nesta mostra, sempre estiveram
presentes nas paredes do apartamento 
da Av.Vieira Souto, e do estúdio da rua Gomes
Carneiro.
Ambos em Ipanema, bairro conhecido
por um doce balançar ao caminho do mar.
Constituem, portanto, a verdadeira seleção
dos trabalhos que ele mais gostava.
Ele, o autor. O artista. Grande artista que repetidamente
negou ser.
Sem qualquer outra interferência. Nem minha. 
Millôr Fernandes.
         Para mim, VolksMíllôr, meu amigo.

MEU PAI E EU, EU E MEU PAI.

Título mais banal? Impossível.  Meu pai veio antes, eu depois.Curioso, não? Quando vim, ele já despedia o Alter Ego “Vão Gogo” para ser Millôr. O nome que Milton Fernandes escolheu adotar, surgiu de uma caligrafia mal traçada no registro de nascimento, onde o corte do “T” virou acento circunflexo e o “N” um erre , e lá em família, do dia pra noite só se falava  Millôr. Milton sumiu.
       Milllôr e Sérgio Porto, Ziraldo,Rubem Braga, Murilo Mendes,Manoel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Rezende, Hélio Pelegrino, Jorge Zahar,Leon Eliachar, João Bethencourt, Paulo Francis, Ivan Lessa, Fausto Wollf, Enrico Bianco, Hélio Fernandes (irmão dele), Fernando Sabino e os demais, me desculpem, eu tinha menos de 10 (dez!) anos… Conversa muita. E risos.Gargalhadas.
Espíritos ao ar.
Rodas de Poker. Reuniões. Todas aos sábados, nunca aos domingos...
Cresci entre conversas e desenhos. A nankim, em preto e branco ou coloridos – muito- bico de pena. Desenhos escolhidos por ele, para ficarem com ele, e jamais serem vendidos. Me influenciaram demais. Se o amigo pedia um, dava. Mas como pedaço da própria carne.. Preferia fazer um novo.E ao presentear o desenho, fazia também uma dedicatória de fina ironia, mas sempre afetiva...
         Em todas as atividades artísticas, os mesmos traços, disciplina férrea e independencia total. Livre-pensador, só tinha compromissos com o Livre-Pensar. É só pensar.
 Os livre-pensadores admirados, Henry Miller, John Lennon, Lincoln, Bernard Shaw, Ambroise Bierce.            
Ideologias? Fez a dele, cotidianamente. De defender a alegria e a felicidade, diuturnamente . Seguindo a falta de estilo cultivada, o pensador preferido, e com razão, para os que o conheceram, era Millôr Fernandes. Ele  mesmo, sim.
Millôr. Dramaturgo.Literato.Humorista. Linguista.Meio tarado, manco musical, atleta amador, desenhista, jornalista e, principalmente, para mim, interlocutor.Criador de um personagem Ipanemense bastante conhecido no bairro, o “Seu Millôr”. Certa vez recebeu uma carta  endereçada assim: Millôr Fernandes, Ipanema. Considerou a maior glória obtida em vida”.
Este foi meu pai.  Ou como o vejo.