sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Página em branco

Hoje li mais uma. Sim, mais uma crônica sobre a tal da página em branco.
Mais uma, entenderam? São centenas? Sempre a tal da página. Em branco?
O que tem demais uma página em branco? Hein? Algum cronista começa
com uma página que não seja em branco? Hein? Como?
Mas a maldita reaparece. Sempre. Como maldição. Não me recordo (mentira,
recordo sim) de cronista que não usasse este tema. Nhém, nhém, nhém, minha
página em branco e tome lá chatice. Alguns abordaram este tema sem serem
chatos, cacetes? Poucos. Os brilhantes, porque por serem brilhantes, nunca
abordaram esta bobagem como real. Mas como tema, fingindo falta de tema,
para escreverem sobre trivialidades que, de outra forma, não se permitiriam.
E eram brilhantes. E só. Mas fingiam!!!
Toda cronica, texto, peça, ilustração, começa sempre com uma página em branco.
Já pensaram nisto?
Medíocres, estou certo que não. Que nunca pensaram. E usam a escapatória "original" para
 justificarem a própria mediocridade. Ou pior, preguiça.
O quê? Ouvi bloqueio? Bloqueio? Mesmo? Profissional não tem bloqueio. Escreve.
Sobre o que for. Francis me dizia, literalmente, cito: " Bota uma moedinha na minha
boca que eu escrevo..." 
Otto, lenda ou não, reconhecido por escrever editoriais,editoriais, em jornais rivais, 
defendendo um lado e outro da moeda. E ambos eram tão fascinantes que os leitores
de ambos os jornais se sentiam como "donos da parada", isso para não citar Braga. 
Que aconselhava ao jovem cronista que este, ao encontrar uma
dificuldade gramatical qualquer e não dispusesse de um dicionário à mão; "desse uma
voltinha",  voltinha gramatical, claro. Braga, acho (apenas acho, nunca verifiquei) inventou
esta maldita crônica. Por puro talento. E, ironicamente, por falta total de talento
dos que se arrogam cronistas, somos
perseguidos até os correntes dias por esta "originalidade". Saco!
De onde surge esta página em branco? Esta permissividade? Da ignorância do cronista
ou do leitor ? Não. Normalmente e, novamente não verifiquei, apenas acho, de uma ressaca, 
falta de paciência, uma noite mal-dormida, uma trepada interrompida, uma barriga vazia ou 
pura preguiça. O pior (este eu verifiquei) dos pecados capitais, enfim 
uma razão qualquer para"desculpem, hoje não estou afim". Não estou nem aí. 
Para a carne seca, para o que der e vier.
Bloqueio? Novamente?
Por quê? Se é profissional, peça ao colega ao lado um assunto. Profissional escreve
sobre qualquer assunto. O colega faltou? Peça uma sugestão ao ascensorista. Ao porteiro.
Ao segurança. Todos,  absolutamente todos, terão algo a sugerir para suprir sua falta de
imaginação, assuntos, idéias e etc. Entre tres compromissos ou etc...
Uma galinha doente. Uma amante caolha. Uma filha zarolha. E por aí vai.
Menos a tal, a tal, da página em branco. Nos poupem.
Ivan Lessa dizia:" leitor, lê. Leitor não escreve. " O contrário vale também. Cronista escreve.
Então escreve, maldito! Sobre qualquer coisa, escolha, de um tudo, vale-tudo, menos
página em branco.
Sugiro que, de hoje em diante, todo e qualquer cronista que escreva sobre a maldita
tenha o seu décimo terceiro pagamento suspenso. Por justa causa.
E chega de crônica sobre página em branco.

Combinado?

P.S. Sobre o quê eu queria escrever mesmo?
Ah! Sim. Sobre a página em branco.

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